Tranquei-me de um modo que nunca imaginei. Não escrevo mais porque desgosto das palavras que me saem. Não falo mais porque já não o sei. A minha boca é a última fronteira. Quando falo, liberto fantasmas e demônios que carrego dentro de mim. Aqueles que amo e odeio com a mesma intensidade. Aqueles que não quero que me escapem. Eu sei, basta uma palavra. Mas tenho medo de falar do que não quero. E tenho medo das noites. Tenho tanto medo das noites como de mim mesmo. Quando o sol se põe e a cidade se acalma, é como se tudo fosse explodir e se desfazer e ecoar eternamente numa nuvem de silêncio. As noites são terríveis. Mas quando acordo no dia seguinte, tudo melhora e é esquecido suavemente no cansaço dos dias.

Minha vida é a busca mental pela palavra certa para que me compreendam. E o enorme esforço para não me sentir ausente em minha própria língua.

The Front Bottoms – Swimming Pool

“[...]
But I’m a creature of a culture that I create
I’m the last one on the dance floor
As the chandelier gives way
And I am permanently
Preoccupied with your past
I’ve been around long enough now
To know that the good things never last
They never last.”

 

"Quando gosto muito das pessoas nunca digo a ninguém como se chamam. É como entregar uma parte delas. Aprendi a apreciar a discrição. Parece-me ser a única coisa que pode tornar a vida moderna misteriosa ou maravilhosa aos nossos olhos. A coisa mais banal pode ser encantadora se a ocultarmos."

Oscar Wilde in "O retrato de Dorian Gray".

 

O livro que não era de ninguém

Queria roubá-lo para si. Torná-lo seu e fazer o que bem quisesse. Rabiscar, colocar anotações nos cantos e pequenos desenhos no rodapé das páginas. Marcá-lo como próprio, assinando o nome na contracapa. Nunca assinava os seus livros, mas naquele teve vontade de fazê-lo, apesar de desconhecer bem as razões. Poderia facilmente comprar outro igual em alguma livraria, mas tinha medo de não haver o mesmo apelo, a mesma intenção, a mesma lembrança torta a servir de consolo.

Era um livro fininho, portátil, de título sugestivo e letras graúdas, quase delicado em sua constituição. Frágil como são todas as coisas belas. Queria agradecer a indicação. Nem sempre as pessoas acertavam suas predileções literárias. Pensou em contar que havia gostado tanto que o leu duas vezes – e dificilmente lia o mesmo livro outra vez. Guardava a leitura dúplice para aqueles raros momentos em que algum autor criava uma obra tão maravilhosa que parecia se conectar a ele de forma a virarem velhos amigos tomando uma bebida.

Mas o livro não o pertencia. E ele se incomodava de não ser o proprietário. Havia a angústia do empréstimo, a necessidade de devolução, o cuidado adicional por algo que não era seu. Pensava, talvez, se um livro tão querido não fazia falta em alguma estante. Certamente teria sentido se fosse seu e alguém não o devolvesse. Sim, precisava devolvê-lo, portanto. Só não sabia como. Não estava preparado.

Passou então a planejar mil formas de entregá-lo. Pelos Correios, cheio de formalidades. Ou enrolando-o em algumas folhas de papel cheias de desculpas sinceras e o arremessando de qualquer jeito por alguma janela. Pensou até em pagar alguns trocados a um moleque de rua para que a devolução fosse feita por uma terceira pessoa. Pensou, pensou, mas nunca conseguia se decidir.

Os anos passavam e o livro na estante ainda aguardava devolução, à espera da coragem que ele não tinha. Até que um belo dia, tempos depois, encheu-se de uma bravura meio ridícula e procurou a dona daquela pequena obra-prima. Ela o recebeu, estranhamente, disfarçando certo desconforto pela memória da última vez em que estiveram juntos. E, para surpresa dele, afirmou com uma certeza quase bibliotecária:

“- Este livro não é meu. Nunca o tive. Você deve ter se confundido.”

Se ficou aliviado ou angustiado depois deste encontro, nunca se soube. Ele viveu até o último dos seus dias sem descobrir de quem era aquele livro e como tal dádiva da literatura mundial foi parar em suas mãos.

Falando em coração… descobri esses últimos dias que tenho um probleminha no meu, depois de fazer alguns exames. Um distúrbio não-sei-o-quê. Nada grave, nada que me impeça de ter uma vida normal, com os devidos cuidados. Só achei curioso e, talvez, irônico o fato de ter o órgão sentimental fisicamente meio zoado e fodido.