The Front Bottoms – Swimming Pool

“[...]
But I’m a creature of a culture that I create
I’m the last one on the dance floor
As the chandelier gives way
And I am permanently
Preoccupied with your past
I’ve been around long enough now
To know that the good things never last
They never last.”

 

"Quando gosto muito das pessoas nunca digo a ninguém como se chamam. É como entregar uma parte delas. Aprendi a apreciar a discrição. Parece-me ser a única coisa que pode tornar a vida moderna misteriosa ou maravilhosa aos nossos olhos. A coisa mais banal pode ser encantadora se a ocultarmos."

Oscar Wilde in "O retrato de Dorian Gray".

 

O livro que não era de ninguém

Queria roubá-lo para si. Torná-lo seu e fazer o que bem quisesse. Rabiscar, colocar anotações nos cantos e pequenos desenhos no rodapé das páginas. Marcá-lo como próprio, assinando o nome na contracapa. Nunca assinava os seus livros, mas naquele teve vontade de fazê-lo, apesar de desconhecer bem as razões. Poderia facilmente comprar outro igual em alguma livraria, mas tinha medo de não haver o mesmo apelo, a mesma intenção, a mesma lembrança torta a servir de consolo.

Era um livro fininho, portátil, de título sugestivo e letras graúdas, quase delicado em sua constituição. Frágil como são todas as coisas belas. Queria agradecer a indicação. Nem sempre as pessoas acertavam suas predileções literárias. Pensou em contar que havia gostado tanto que o leu duas vezes – e dificilmente lia o mesmo livro outra vez. Guardava a leitura dúplice para aqueles raros momentos em que algum autor criava uma obra tão maravilhosa que parecia se conectar a ele de forma a virarem velhos amigos tomando uma bebida.

Mas o livro não o pertencia. E ele se incomodava de não ser o proprietário. Havia a angústia do empréstimo, a necessidade de devolução, o cuidado adicional por algo que não era seu. Pensava, talvez, se um livro tão querido não fazia falta em alguma estante. Certamente teria sentido se fosse seu e alguém não o devolvesse. Sim, precisava devolvê-lo, portanto. Só não sabia como. Não estava preparado.

Passou então a planejar mil formas de entregá-lo. Pelos Correios, cheio de formalidades. Ou enrolando-o em algumas folhas de papel cheias de desculpas sinceras e o arremessando de qualquer jeito por alguma janela. Pensou até em pagar alguns trocados a um moleque de rua para que a devolução fosse feita por uma terceira pessoa. Pensou, pensou, mas nunca conseguia se decidir.

Os anos passavam e o livro na estante ainda aguardava devolução, à espera da coragem que ele não tinha. Até que um belo dia, tempos depois, encheu-se de uma bravura meio ridícula e procurou a dona daquela pequena obra-prima. Ela o recebeu, estranhamente, disfarçando certo desconforto pela memória da última vez em que estiveram juntos. E, para surpresa dele, afirmou com uma certeza quase bibliotecária:

“- Este livro não é meu. Nunca o tive. Você deve ter se confundido.”

Se ficou aliviado ou angustiado depois deste encontro, nunca se soube. Ele viveu até o último dos seus dias sem descobrir de quem era aquele livro e como tal dádiva da literatura mundial foi parar em suas mãos.

Falando em coração… descobri esses últimos dias que tenho um probleminha no meu, depois de fazer alguns exames. Um distúrbio não-sei-o-quê. Nada grave, nada que me impeça de ter uma vida normal, com os devidos cuidados. Só achei curioso e, talvez, irônico o fato de ter o órgão sentimental fisicamente meio zoado e fodido.

Como o cheiro do café

Veio de uma espera distraída. Fazia uma tarde ensolarada, dessas em que o calor apenas deixa todos um pouco mais vivos, sem estragar a beleza do clima. Ele deu uma pequena pausa em suas ocupações cotidianas para observar o movimento na rua, os carros passando e a pressa das pessoas, enquanto apreciava um cappuccino na cafeteria em frente ao prédio do trabalho. Logo o café passou a ser apenas uma desculpa. Porque a pausa girava em torno dela. A simples e inexplicável ânsia de vê-la diariamente na cafeteria, durante aqueles míseros vinte e poucos minutos (ela nunca se demorava mais que isso), tornava as tardes mais agradáveis. Quando ela não aparecia, ele entrava num estado de impaciência tamanho que só tinha fim quando a via entrar novamente na cafeteria no dia seguinte. Era quando podia ouvi-la dizer “boa tarde” ao atendente e pedir o mesmo café num tom quase imperceptível, que só ele percebia, ainda que de longe. Imaginava como devia ter sorte aquele atendente careca e sisudo. Poder ouvir diretamente a voz dela, olhá-la nos olhos de perto, sentir melhor o suave perfume que dela emanava. Se fosse ele, teria oferecido o melhor café do mundo em troca do retorno nos dias seguintes. E então, ela sentava-se, posicionava o café do lado direito do corpo e ficava a mexer o açúcar distraidamente, mirando a rua através da vidraça durante algum tempo, num olhar meio desiludido de humanidade. E ele, da sua mesa de canto, ficava a olhá-la demoradamente, e ia crescendo nele uma espécie de ternura pelos gestos mais despercebidos dela: a forma como mexia nos cabelos, como cruzava as pernas ao sentar, ou a curiosidade de saber que anotações ela escrevia numa agenda colorida que sempre trazia junto ao peito. Não estava apaixonado. Sempre acreditou que o amor era apenas um componente numa infinita e complexa teia de sentimentos ainda maiores e sem nome. O que sentia por ela era algo que não sabia nem queria dizer, porque temia estragar aqueles pequenos encontros vespertinos. Encontros de uma fragilidade tão latente que faziam com que ele fosse à cafeteria todos os dias, no mesmo horário, ainda que doente ou ocupado. Até que um dia ela não apareceu. Nem no dia seguinte. Nem no depois. Nem nas longas semanas que se seguiram. Resolveu, então, passar mais tempo na pausa do café, temendo que ela eventualmente pudesse aparecer nas escassas horas em que ele não estava lá. Mas ela nunca mais apareceu. E o cappuccino de todas as tardes deixou de fazer sentido, ficou ralo, perdeu o sabor. A ansiedade que antes dele havia se apoderado passou a dar lugar a uma angústia. Começou a sofrer uma espécie de ressaca muda e dolorosa de um relacionamento que jamais teve início, e cujo fim precoce parecia devorá-lo por dentro. Mas nunca, em hipótese alguma, ousou chamar aquilo de amor. Era apenas um sentimento que dele saía livremente, invisível como o cheiro do café, na vã esperança de que ela pudesse senti-lo naquele lugar.

"A vida é sempre um contraponto entre o infinito de certos momentos e a finitude de um cotidiano."

Eduardo Prado Coelho